quinta-feira, 8 de outubro de 2009

2 Col. - Volume 3

Educação Física 2ª Série – Ensino Médio – Tchoukball
O tchoukball surgiu de reflexões e pesquisas do doutor Hermann Brandt, um médico suíço nascido em Genebra. No início da década de 1960, Brandt cuidou de muitos atletas que se lesionavam na prática de esportes e essas lesões eram, em sua maioria, provenientes de agressões dos adversários – o que é comum em modalidades de contato. Segundo Brandt, os esportes não deveriam produzir campeões, mas contribuir para a construção de uma “sociedade humana digna”. Para isso, ele criou esse esporte, que seria uma mistura de pelota basca (esporte popular no País Basco, Espanha, mas praticamente desconhecido no Brasil), handebol e voleibol.O nome da modalidade faz alusão ao som produzido pelo contato da bola como quadro de remissão (objeto usado como meio para atingir o alvo, que, no tchoukball, é qualquer parte do campo de jogo). Esse
quadro é parecido com uma pequena cama elástica virada para a quadra. Pela ausência de contato físico entre os participantes, essa modalidade é conhecida como o “esporte da paz”. Ao criar esse novo esporte a partir de outros já existentes, Brandt diferenciou-o dos esportes mais conhecidos por quebrar alguns paradigmas. Primeiro, por não permitir o contato físico entre os jogadores sem estabelecer uma divisão do território de ataque e defesa, como acontece no voleibol, em que a rede faz a separação entre os adversários. Aqui, as duas equipes podem ocupar o mesmo espaço na quadra. Aliado a isso, está o segundo ponto diferencial: como não há contato físico, o quadro de remissão (objeto usado como meio para atingir o alvo, que, no tchoukball, é qualquer parte do campo de jogo). Esse quadro é parecido com uma pequena cama elástica virada para a quadra. Pela ausência de contato físico entre os participantes, essa modalidade é conhecida como o “esporte da paz”. não é permitido interceptar ou roubar a bola do adversário. Só se recupera a bola em três situações: por consequência do erro de passe, da marcação de ponto ou de uma defesa após o arremesso, ao final de um ataque do adversário. A defesa sempre consiste em tentar recuperar a bola (rebote) após um arremesso da
equipe adversária. Outra diferença das demais modalidades esportivas coletivas é que os dois quadros de remissão não representam o alvo a ser acertado. Porém, para que um ponto seja concretizado a partir de um arremesso (há outras formas de se conquistar um ponto que serão apresentadas adiante), é preciso que a bola toque no quadro. Dessa forma, acertar o quadro funciona como um meio para se conseguir os pontos. Assim, o alvo passa a ser a quadra toda, pois se pode arremessar em qualquer um dos dois quadros disponíveis. Como não há divisão de espaços de ataque e quadefesa, a equipe precisa estar atenta e muito bem distribuída pela quadra, além de realizar uma movimentação constante em função dos passes da equipe adversária, pois, para recuperar a bola, é preciso estar em boas condições para pegar o rebote. Destacamos as principais regras oficiais: o jogo acontece em um terreno de 40 × 20 metros (quadra oficial); a bola utilizada é a de handebol; ao todo são nove jogadores em cada equipe;ara acertar o alvo (a quadra), é necessário arremessar a bola em qualquer um dos dois quadros de remissão (quadros de 1 X 1 m, inclinados a 55°) dispostos na parte central da linha de fundo; o arremesso não pode ser feito por trás do quadro (fora da quadra); não há uma quadra ou um alvo específico a defender ou a atacar, pois os dois quadros podem ser utilizados por ambas as equipes; em frente a cada quadro, há uma área frontal, ou zona proibida, em forma de semicírculo, com três metros de raio; o jogador nunca pode invadir essa área com a bola, ao finalizar, ao pegar o rebote, ao passar ou a recepcionar; depois de arremessá-la, caso o faça a partir de umsalto, poderá entrar na área proibida desde
que sem a posse da bola; a duração do jogo para os homens é de três tempos de 15 minutos cada um; para as mulheres e equipes mistas, três tempos de 12 minutos cada um. Os pontos: O simples fato de atingir o quadro não é suficiente para marcar pontos, pois ele funciona apenas como um meio para obter a pontuação. Para conquistar algum ponto a partir do arremesso, a bola deve tocar o quadro e cair em alguma parte da quadra (menos na área que fica em frente aos quadros, a zona proibida). Um jogador concede pontos à equipe adversária se: não acertar o quadro após o arremesso; após a finalização, a bola cair fora da quadra de jogo;após a finalização, a bola acertar o seu corpo; antes ou depois de arremessar, a bola cair dentro da área (zona proibida). Se, após o arremesso, a bola for recuperada pela equipe adversária, o jogo continuará normalmente. Após a concretização de um ponto, a equipe adversária deverá repor a bola atrás da linha de fundo. Os passes: Somente passes aéreos são permitidos e ninguém pode interceptar um passe. Cada equipe pode passar a bola, no máximo, três vezes (como no voleibol), porém sempre que a bola for recolocada em jogo ou recuperada a partir de uma defesa da equipe que foi atacada (pegar o rebote provocado após a bola bater no quadro), o primeiro passe não é contado. O jogador de posse da bola só pode dar três passadas (como no handebol) antes de passá-la ou arremessá-la ao alvo, mas sem quicá-la. As faltas: Sempre que houver alguma violação das regras, as faltas deverão ser cobradas no local onde aconteceram ou onde a bola caiu. Ao repor a bola depois de alguma infração, o jogador não poderá arremessá-la diretamente no quadro, ou seja, é necessário executar, no mínimo, um passe antes da finalização. Se a bola tocar na borda do quadro após um arremesso, o ponto não será computado. Esse caso representará uma falta e o jogo será reiniciado pela equipe adversária do local onde a bola houver caído. Portanto, um jogador comete falta quando: desloca-se driblando com a bola no chão ou no ar; efetua o quarto passe; de posse da bola, sai da quadra ou entra
na zona proibida; intercepta a bola (involuntariamente ou não) após um passe da equipe adversária; deixa a bola cair no chão no momento de um passe ou recepção; é tocado pela bola abaixo do nível da cintura (membros inferiores); pega a bola após a finalização de sua equipe; impede o deslocamento do adversário (segurando, agarrando, obstruindo a passagem etc.). É importante ressaltar que é possível adaptar
as regras e os materiais, de acordo com as características dos alunos, o local da prática e o material disponível. A bola pode ser adaptada (diferentes tamanhos e pesos), assim como o número de jogadores (não precisa ser o mesmo do oficial) ou o tamanho da quadra (que pode ser aumentado ou reduzido). A duração do jogo e o número de tempos também podem ser modificadosO material mais difícil de adaptar é o quadro,
pois necessita de uma superfície que faça a bola ser impulsionada para longe. Uma alternativa viável é improvisar um minitramp que funcione como quadro, lembrando que ele precisa ter uma inclinação para que a bola seja projetada para a quadra. A construção de um quadro alternativo é interessante, podendo ser feito de madeira. Visualize um pequeno gol de futebol (conhecido como caixote) em que a parte que sustenta a rede seria coberta por uma chapa de madeira (a parte quadriculada representada na figura). Também pode ser feito somente de uma chapa de madeira, que fi caria encostada à parede, não sendo necessária estrutura para sustentá-la. A área que fica em frente ao quadro pode ser a área do futsal ou ser adaptada com uma fita ou giz que permita sua visualização. Corpo, saúde e beleza: Em uma abordagem mais moderna, a saúde
é compreendida como uma condição humana com dimensões física, social e psicológica, caracterizada por um continuum com polos positivo e negativo associados aos aumentos na morbidade e/ou mortalidade das populações. Segundo dados do Ministério de Saúde (2006), as doenças do aparelho circulatório representam a principal causa de mortes para ambos os sexos em todas as regiões do Brasil (com exceção da Norte). Em segundo lugar, nas estatísticas, estão as mortes associadas a causas externas (especialmente acidentes e homicídios), entre os homens, e as neoplasias (câncer), entre as mulheres. Conhecendo-se as principais causas de
mortalidade, é importante identificar os fatores de risco ligados a elas. Conceituados como hábitos ou características pessoais que predispõem ao desenvolvimento de patologias, os fatores de risco podem ser divididos em não modificáveis (hereditariedade, sexo, envelhecimento e etnia) e modificáveis (fumo, álcool, drogas, sedentarismo, estresse e alimentação). Como são controlados pela manutenção ou pela mudança dos hábitos diários, os fatores modificáveis podem ser alvo de campanhas educacionais e de saúde que incentivem a adoção de um estilo de vida saudável. As doenças do aparelho circulatório (doenças cardiovasculares) afetam tanto o coração – como na doença arterial coronariana e no infarto, quanto os vasos sanguíneos, como na aterosclerose, no acidente vascular cerebral (AVC) ou encefálico (AVE) e na doença vascular periférica. Histórico familiar, sexo masculino e envelhecimento destacam-se como os principais fatores de risco não modificáveis dessas doenças. O tabagismo, o sedentarismo, a dieta inadequada e altos níveis de estresse são
os principais fatores modificáveis. Além desses, doenças como diabetes e obesidade são fatores que contribuem para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, muitas vezes por estarem associadas a baixos níveis de atividade física e dietas inadequadas (ricas em gorduras). Mais importante do que estabelecer quais fatores são mais relevantes no comprometimento cardiovascular é entender como eles contribuem
para o problema e estabelecer os cuidados que devem ser tomados para preveni-lo. Quanto aos fatores não modificáveis, é importante que se investigue o histórico familiar.A existência de casos de doenças ou problemas cardiovasculares na família faz que uma atenção maior seja dedicada aos fatores de risco modificáveis à medida que a idade avança, especialmente entre os homens. O tabagismo, associado a uma alimentação/ dieta desequilibrada que favoreça um nível elevado de colesterol sanguíneo, especialmente da lipoproteína de baixa densidade (LDL), além de níveis corporais baixos das vitaminas A, E e C, pode ocasionar lesão na parede das artérias e favorecer o surgimento da aterosclerose (placa de gordura na camada interna das artérias), condição altamente associada ao desenvolvimento das doenças cardiovasculares. Portanto, redução do tabagismo e melhor qualidade na composição da dieta, em particular no que se refere à ingestão de gordura e de vitaminas, exerceriam efeito protetor sobre o surgimento e o agravamento das doenças cardiovasculares. O sedentarismo talvez seja o fator de risco mais prevalente, o que está presente no maior número de casos. Nas pessoas com hábitos sedentários,a aptidão cardiovascular diminui, sobrecarregando o aparelho circulatório durante a realização de atividades físicas. Em contrapartida, o exercício regular aumenta a resistência aeróbia, que promove adaptações nas artérias coronarianas (como aumento de seu diâmetro e diminuição de sua rigidez) e no coração, uma vez que o músculo cardíaco se fortalece. Essas alterações protegem contra distúrbios cardiovasculares. Além disso, pessoas ativas comumente
mantêm os outros fatores de risco sob controle (tabagismo, alimentação e estresse). O estresse, por sua vez, diz respeito à maneira pela qual o organismo reage a qualquer estímulo, podendo ser positivo (quando relacionado a estímulos que promovam adaptações positivas ao organismo, como a atividade física moderada), ou negativo, (quando associado a estímulos prejudiciais ao organismo, como a dor). É difícil delimitar a participação do nível de estresse no risco de doenças cardiovasculares, visto que sob situações estressantes muitos indivíduos adotam hábitos poucos saudáveis (comem, fumam e bebem exageradamente, utilizam drogas, exercitam-se menos etc.). Sabe-se, porém, que há forte relação entre maiores níveis de estresse e cardiopatias em indivíduos que apresentam padrões de comportamento associados a ansiedade, agressividade, hostilidade, exigência e competitividade. Para esses indivíduos, tais riscos só poderão ser minimizados se houver mudança na forma de responder às situações de estresse, o que requer alteração de seu estilo de vida.
Ao relacionarmos exercícios físicos com estresse, percebemos que as características da atividade geram consequências distintas. Quando o exercício envolve atividade física intensa, prolongada ou repetida sem um intervalo adequado entre as sessões, o organismo é exposto a uma condição de estresse crônico, físico e mental, favorecendo o desenvolvimento de doenças. Em contrapartida, atividades físicas moderadas e/ou de cunho recreativo, praticadas com regularidade, permitem ao organismo recuperar-se adequadamente entre uma sessão e outra, têm efeito tranquilizante associado à sensação de bem-estar, além de reações bioquímicas
provocadas pelas endorfinas, que podem ajudar a reduzir os níveis de estresse. A adoção de um estilo de vida fisicamente ativo é um fator importante para a manutenção de um bom estado de saúde. Porém, algumas condutas inadequadas ou prejudiciais à saúde podem estar atreladas à prática de exercícios físicos. Por exemplo: a ilusão de obter resultados melhores com maior rapidez compromete os benefícios pretendidos
com a atividade física regular; dietas diversas, voltadas principalmente para a redução de peso corporal, e uso de suplementos alimentares, esteroides anabolizantes e outras formas de doping, adotados para potencializar os efeitos do treinamento físico e a obtenção de maior rendimento atlético, são igualmente comprometedores. doenças hipocinéticas: obesidade, hipertensão e outras Conforme ressaltado, o sedentarismo é um dos fatores de risco de maior prevalência (número total de casos) na gênese de patologias que afetam negativamente a saúde, como obesidade, diabetes e hipertensão, referidas como doenças hipocinéticas, o que sugere a adoção de um estilo de vida fisicamente mais ativo como fator de prevenção e promoção/manutenção de um bom estado de saúde. Manter-se fisicamente ativo implica maior
envolvimento com a atividade física, que pode ser definida como qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética, que gera um gasto energético superior ao que se despende em repouso. Engloba, portanto, as atividades da vida diária, como tomar banho, vestir-se e comer, as tarefas domésticas, as atividades profissionais, o deslocamento e as atividades de lazer, incluindo exercícios físicos, dança etc. Para que a atividade física possa promover e manter benefícios à saúde, é necessário que se induza adaptações positivas sobre o estado de aptidão física. Essas adaptações são feitas, sobretudo, pela prática de exercícios físicos, definidos como toda atividade física planejada, estruturada e repetitiva que tem por objetivo a melhoria e a manutenção da aptidão física, das habilidades motoras ou a reabilitação orgânico-funcional. De acordo com NAHAS (2006), considera-se sedentário o indivíduo que, na somatória das atividades físicas, apresenta um gasto energético semanal inferior a 500 kcal. Já o indivíduo que acumula um gasto energético semanal de pelo menos 1 000 kcal é considerado moderadamente ativo. Níveis moderados de atividade física podem reduzir de forma significativa o risco de doenças hipocinéticas (obesidade, hipertensão e outras).
Portanto, identificar o perfil de atividade física de cada indivíduo e sua relação com o atual estado de saúde pode ser uma importante estratégia para a promoção de um estilo de vida fisicamente mais ativo e saudável.
níveis de atividade física e obesidade Atualmente, o aumento excessivo de peso devido ao acúmulo de gordura nas reservas corporais (obesidade) está associado principalmente à combinação de baixos níveis de atividade física com alta ingestão calórica ou, especificamente, com alta ingestão de gordura. Ao longo do processo de envelhecimento, é comum observar o aumento da gordura corporal em razão do sedentarismo
progressivo. Ex-atletas também estariam propensos ao aumento da gordura corporal em virtude da redução do gasto calórico decorrente da diminuição do nível de atividade física sem a correta adequação na ingestão calórica. A evidente associação entre sedentarismo, alimentação inadequada e maior incidência e prevalência de obesidade torna necessária uma rotina fisicamente mais ativa, paralela a hábitos nutricionais adequados. Dessa forma, é possível prevenir e controlar o aumento do peso corporal e suas consequências negativas para a saúde, que causam maior risco de morbidade. Participar de programas de exercícios físicos facilita o ajuste entre o gasto energético decorrente das atividades físicas e a ingestão calórica, o que é fundamental no controle da obesidade. Para a elaboração de um programa de exercícios adequado, devem-se considerar
as características individuais, como disponibilidade de tempo e preferência motivacional por modalidades diversas (aeróbias e anaeróbias), a fim de se definirem a intensidade e a duração das atividades. níveis de atividade física e diabetes O diabetes mellitus é uma doença endócrinometabólica caracterizada por altos níveis glicêmicos, decorrentes da ausência ou da baixa quantidade de insulina no sangue e/ou da inefi ciência na ação da insulina. Atualmente, é uma das patologias mais prevalentes em todo o mundo, associada a altas taxas de morbidade e mortalidade. Quando o controle metabólico não é satisfatório, surgem complicações
agudas e crônicas que provocam impactos econômico e social. Baixos níveis de atividade física podem contribuir indiretamente para o surgimento de quadros de diabetes associados ao maior acúmulo de gordura corporal e consequente aumento de peso. Mas, quando se pensa no diabetes, combater o sedentarismo é essencial para controlar a doença. O exercício físico, associado ou não a dietas especiais e ao uso de fármacos, como insulina e outros hipoglicemiantes, desempenha importante papel no controle da glicemia (taxa de açúcar no sangue), pois melhora os mecanismos de captação de glicose pelos órgãos, como o fígado e músculos. Logo, um diabético fisicamente menos ativo pode encontrar maior dificuldade em controlar seus níveis glicêmicos, o que pode agravar a doença e facilitar o aparecimento de complicações agudas ou crônicas, como problemas renais, oculares e vasculares. níveis de atividade física e hipertensão A hipertensão tem como característica o aumento da pressão sanguínea acima dos níveis considerados normais para cada faixa etária, sexo e estilo de vida. A pressão elevada provoca sobrecarga hemodinâmica, estimulando uma carga adicional no trabalho cardíaco e danos nas paredes internas dos vasos, especialmente nas artérias. Em adultos, considera-se um indivíduo hipertenso quando sua pressão sanguínea constantemente atinge valores sistólicos acima de 140 mmHg ou valores diastólicos superiores a 90 mmHg. A hipertensão pode provocar diversas complicações vasculares, cardíacas, renais e cerebrais. Comparados a pessoas com pressão arterial normal, os hipertensos correm um risco sete vezes maior de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) e três
vezes maior de ter infarto do miocárdio. Uma das consequências do baixo nível de atividade física é uma menor capacidade cardiovascular, o que pode sobrecarregar o sistema cardiocirculatório. Associados a fatores genéticos e nutricionais, o aumento de peso e o nível elevado de estresse, podem predispor ao desenvolvimento da hipertensão. Em contraposição, alguns estudos têm demonstrado que a prática regular de exercícios de baixa a moderada intensidade e de longa duração age positivamente sobre a pressão sanguínea, diminuindo o risco de ocorrência de hipertensão. mídias: a transformação do esporte em espetáculo televisivo O esporte, atualmente, faz parte de uma vasta indústria do entretenimento/lazer, com grande impacto econômico e transformou-se em um negócio, com profundas implicações ideológicas, políticas e pedagógicas. Estima-se que a chamada “indústria esportiva” movimente em torno de US$ 1 bilhão por dia, em todo o mundo. As mídias, com destaque para a televisão, desempenham papel decisivo nesse processo, cujo início coincide com a constatação da capacidade que tem o esporte de atrair espectadores. A partir do momento em que alguém se dispôs a pagar para assistir um evento esportivo, abriu-se caminho para o financiamento do esporte profissional. Já no século XIX surgiram na Inglaterra os “espectadores-apostadores”, que faziam apostas nas lutas de boxe e nas corridas de rua. O espectador fiel a um dos competidores apareceu no início do século XX: trata-se do “torcedor”. A partir da década de 1960, com a popularização da televisão e o início das transmissões ao vivo de eventos esportivos (e os sistemas de satélite garantem que imagens e sons alcancem,
simultaneamente, todo o planeta), o esporte transformou-se em um “telespetáculo”; ou seja, uma “[...] realidade textual relativamente autônoma face à prática „real‟ do esporte, construída pela codificação e mediação dos eventos esportivos efetuados pelo enquadramento das câmaras televisivas, a edição das imagens e os comentários que se acrescentam a elas, que interpretam para o espectador o que ele está vendo [...]” (BETTI, 2001a, p. 126). “„São apenas negócios‟, conclui sobre o esporte um personagem do filme estrelado por Bruce Willis, The last boy scout (traduzido no Brasil por O último boy scout), um ex-atleta retirado dos campos de futebol americano por causa de uma lesão nos joelhos. O esporte espetáculo é trabalho e show; o atleta é um trabalhador e artista, sujeito a doenças ocupacionais e desemprego, como qualquer outro. Embora o esporte seja temática cada vez mais frequente nos filmes de Hollywood, o espetáculo esportivo é basicamente televisivo, assemelha-se mais a uma novela do que ao cinema ou teatro, com a vantagem, para a mídia eletrônica, de encontrar o cenário pronto, os atores ou atrizes contratados, o script esboçado; quer dizer, parte da conta já paga. O esporte é, cada vez mais, uma matéria para „marketeiros‟, empresários, executivos das grandes redes de televisão.” Fonte: BETTI, Mauro. Educação física e sociologia: novas e velhas questões no contexto brasileiro. In: CARVALHO, Yara Maria de; RUBIO, Katia (Org.). Educação física e ciências humanas. São Paulo: Hucitec, 2001. p. 160. É esse texto audiovisual o produto vendido pelas mídias: o espetáculo esportivo em si e a “falação” (ECO, 1984, p. 220) sobre ele. Fala-se sobre tudo e sobre todos nos programas e noticiários esportivos, nas matérias jornalísticas e colunas de opinião dos jornais e revistas especializados e nas entrevistas com atletas. Além disso, o esporte é amplamente explorado pela publicidade, que vende não só os materiais esportivos propriamente ditos (bolas, vestimentas etc.), mas também serviços bancários e alimentos, associando-os a qualidades do esporte, como velocidade e energia. É importante ompreender que o interesse das mídias pelo esporte não se fundamenta no interesse de estimular a prática esportiva, mas de vender a si próprias. Por sua vez, o esporte profissional tornou-se cada vez mais dependente da televisão, pois ela viabiliza os patrocinadores que financiam eventos, clubes e atletas enquanto as mídias dependem do esporte para atrair e formar aficionados que consumam seus produtos. Essa lógica da espetacularização, ligada aos interesses econômicos das grandes empresas midiáticas e às possibilidades tecnológicas de produção e emissão de imagens, tem consequên cias importantes para o modo como entendemos, apreciamos e praticamos o esporte. Em primeiro lugar, destaca-se a fragmentação/ descontextualização do fenômeno esportivo, quando eventos e fatos são extraídos do contexto mais amplo. A experiência global de quem pratica esporte é desconsiderada, pois esporte não é só vitória a qualquer custo, ganhar dinheiro e troféus, mas também sociabilização no confronto com outrem, prazer e ludicidade, vivências que não são privilegiadas pelas mídias. Já as manifestações de violência (quer da torcida, quer dos atletas), às vezes presentes em eventos esportivos, são objeto de destaque nas mídias, como cenas de brigas nos estádios de futebol, seja entre jogadores, seja entre torcidas rivais, que correm todo o mundo, induzindo-nos a acreditar que o futebol é um esporte violento. Em segundo lugar, constata-se que assistir esporte pela televisão torna-se diferente da experiência de assistir aos eventos ao vivo, em estádios e ginásios, pois o que vemos na “telinha” é produto do olhar direcionado das câmeras, da opinião do comentarista, dos recursos tecnológicos, como a “câmera-lenta” e o “ti ra-teima”. A televisão tenta diminuir a distância entre essas duas experiências por intermédio de informações suplementares (closes, câmaras dispostas em diversos ângulos, microfones que captam sons no campo e na torcida etc.), dando ao telespectador “a ilusão de estar em contato perceptivo direto com a realidade, como se estivesse olhando através de uma 'janela de vidro'”, quando aquele, na
verdade, aprecia uma interpretação do evento esportivo, mediada pelos códigos e interesses televisivos (BETTI, 1998, p. 34). Há muitas diferenças na experiência de assistir ao esporte como testemunha corporalmente
presente nos estádios e ginásios, de um lado, e pela televisão, de outro. Entre elas está a perda da autonomia visual do telespectador, que só pode ver o que lhe é mostrado. Nos esportes coletivos, por exemplo, a maior parte do tempo a câmera apenas segue a bola, prejudicando a visão mais global do evento. O telespectador também é privado da experiência do coletivo, pois para quem está em um estádio de futebol, por exemplo, as manifestações da torcida afetam a avaliação da partida. Em terceiro lugar, observa-se que as mídias produzem um discurso hegemônico sobre o esporte. Para elas, esporte é predominantemente esforço máximo, busca da vitória a qualquer preço, dinheiro, campeões. Pouco espaço e tempo são dedicados, nosjornais, revistas, sites e emissoras de televisão para abordagem das potencialidades do esporte em promover valores ligados à saúde, ao lazer e à educação. Tudo isso leva também a implicações éticas, na medida em que as mídias passam a definir valores com relação ao esporte: o que é certo ou errado, legítimo ou ilegítimo. Muitas vezes, isso se processa em termos de dubiedade moral: por exemplo, uma falta violenta no futebol ora é apontada como ameaça ao espetáculo, ora como demonstração de eficiência do “zagueiro macho”.

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